Um ano de livros: o desafio de leitura de Mark Zuckerberg
O que faz alguém que comanda uma das maiores empresas de tecnologia do mundo separar tempo, a cada duas semanas, para ler sobre assuntos que não têm nada a ver com o próprio trabalho? Em 2015, Mark Zuckerberg fez exatamente isso. E a escolha dos livros diz mais sobre liderança do que muito manual de gestão.
Leitura como compromisso
Zuckerberg não decidiu apenas ler mais. Ele transformou a leitura em compromisso público: um livro a cada duas semanas, durante um ano inteiro. O desafio ganhou nome, "A Year of Books".
A diferença entre uma intenção e um compromisso está na regra. Quem promete ler mais costuma desistir na primeira semana corrida. Quem define um ritmo, um prazo e um nome para o próprio desafio cria uma estrutura que segura o hábito quando a agenda aperta. E poucas agendas apertam tanto quanto a de quem comanda o Facebook.
A regra que tirava ele da própria mesa
O ponto mais interessante do desafio não era a quantidade. Era o critério. A regra era ler sobre culturas, crenças, histórias e tecnologias, temas fora do dia a dia de quem comandava o Facebook.
Isso muda tudo. Ler sobre a própria área é útil, mas tende a reforçar o que já se sabe e as perguntas que já se faz. Ler longe dela obriga o leitor a encarar outras formas de pensar, outras escalas de tempo e outros problemas. O desafio foi desenhado para ampliar o campo de visão, não para aprofundar o que já estava no foco.
Ler junto, em público
Zuckerberg não leu sozinho. Ele abriu uma página para discutir cada livro com quem quisesse ler junto.
A decisão tem duas consequências. A primeira é prática: discutir em público reforça o compromisso, porque desistir passa a ser visível. A segunda é intelectual: um livro discutido rende mais do que um livro apenas lido. As perguntas dos outros revelam leituras que o próprio leitor não teria feito.
O que estava na lista
Quatro dos livros que fizeram parte do desafio mostram bem o espírito da regra:
- Sapiens, de Yuval Noah Harari
- A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn
- Os Anjos Bons da Nossa Natureza, de Steven Pinker
- Ordem Mundial, de Henry Kissinger
Nenhum deles é sobre tecnologia ou gestão. São sobre gente, poder e mudança. Em outras palavras, são sobre o contexto em que qualquer empresa existe. Uma empresa não opera no vácuo: ela depende de como as pessoas se organizam, de como as ideias mudam e de como o poder se distribui no mundo. Entender isso não aparece em planilha, mas aparece nas decisões.
A lição
A lição para quem decide é direta: leia longe da própria mesa.
Quem empreende ou lidera vive cercado pelos mesmos assuntos, pelas mesmas métricas e pelas mesmas conversas. Com o tempo, isso estreita o repertório. As respostas ficam mais rápidas, mas as perguntas ficam mais pobres. E, em decisões importantes, a qualidade da pergunta costuma pesar mais do que a velocidade da resposta.
Não é preciso copiar o ritmo de um livro a cada duas semanas. Um livro por mês fora da sua área já muda a qualidade das perguntas que você faz. O que importa é a regra de fundo, a mesma do desafio de Zuckerberg:
- Transforme a intenção em compromisso. Defina um ritmo e um prazo.
- Escolha pelo critério da distância. Prefira temas como culturas, crenças e história, que tratam de gente, poder e mudança.
- Não leia sozinho. Discutir um livro com outras pessoas aprofunda a leitura e ajuda a manter o hábito.
O ganho não é saber mais curiosidades. É enxergar o próprio negócio dentro de um contexto maior, e perceber riscos e oportunidades que quem só olha para a própria mesa não vê.
E você: qual foi o último livro que leu longe da sua área, e que pergunta ele mudou na sua forma de decidir?
Assista ao case em vídeo no @dossie.cases
Análise: Jonathan Sarraf. Um case por dia no @dossie.cases.