Bernardinho e o corte do melhor levantador do país antes do Pan
Semanas antes de um Pan-Americano em casa, com a torcida cobrando resultado, o técnico da seleção masculina de vôlei tomou a decisão que quase nenhum líder tem coragem de tomar: tirou do time o melhor jogador da posição mais sensível da quadra. Em 2007, Bernardinho cortou Ricardinho, o melhor levantador do país. A pergunta que ficou no ar era simples e incômoda: aquilo era firmeza ou loucura?
O jogador que ninguém cortaria
Ricardinho não era um nome qualquer. Era campeão olímpico, parte da conquista em Atenas, em 2004. No vôlei, o levantador organiza o jogo, distribui as bolas e dita o ritmo do time. Abrir mão de alguém assim, às vésperas de uma competição importante, parece contrariar qualquer lógica esportiva.
E o motivo divulgado não foi técnico. Não se tratava de queda de rendimento nem de lesão. A questão era a convivência no grupo.
Ninguém acima do time
Para Bernardinho, ninguém está acima do time. A frase soa comum, quase um clichê de vestiário. O que torna o caso diferente é o momento em que ela foi aplicada. O Pan seria no Rio, com a torcida em peso e a pressão de vencer em casa. Era o pior cenário possível para testar um princípio, e foi exatamente aí que ele decidiu sustentá-lo.
Um princípio que só vale quando é conveniente não é princípio. Bernardinho escolheu deixar claro que a regra do grupo valia inclusive para o seu jogador mais valioso.
Uma régua que já tinha sido testada
A decisão não surgiu do nada. A forma de trabalhar de Bernardinho já tinha passado por provas antes. Com a seleção feminina, ele levou dois bronzes olímpicos, em 1996 e 2000. Com os homens, chegou ao ouro em Atenas.
O fio que liga essas campanhas é a exigência: a mesma para o craque e para o reserva. Em 2006, ele reuniu essas ideias no livro Transformando Suor em Ouro. Ou seja, quando chegou a hora de cortar Ricardinho, o padrão já estava escrito, explicado e praticado. O corte não foi uma explosão de temperamento, foi coerência com um método conhecido.
O que veio depois
O resultado respondeu à pergunta inicial. Sem Ricardinho, o Brasil venceu a Liga Mundial de 2007. Pouco depois, levou o ouro no Pan do Rio, justamente a competição que parecia colocar a decisão em risco.
E a trajetória seguiu. Em 2016, Bernardinho conquistaria outro ouro olímpico, dessa vez em casa, também no Rio. O time continuou vencendo porque a estrutura não dependia de um único nome, e sim de um padrão compartilhado por todos.
A lição
Todo líder já conviveu com alguém muito talentoso que não segue as regras que os outros seguem. A tentação é sempre a mesma: tolerar, porque o resultado individual parece compensar. O caso Bernardinho mostra o custo escondido dessa escolha. Quando o craque tem tratamento especial, o recado para o resto do time é que o padrão é negociável. E padrão negociável deixa de ser padrão.
Alguns pontos práticos para quem empreende ou lidera:
- Deixe o padrão claro antes da crise. Bernardinho tinha um método público, praticado e até registrado em livro. Quando cortou, ninguém podia dizer que a regra foi inventada na hora.
- Teste a regra com quem mais importa. Um princípio só ganha credibilidade quando é aplicado ao seu melhor profissional, não apenas a quem é fácil substituir.
- Construa um time que não dependa de um nome. Se a saída de uma pessoa derruba tudo, o problema não é a pessoa, é a estrutura.
- Aceite o risco do momento. Decisões difíceis raramente chegam em hora conveniente. Adiar para depois do grande projeto costuma significar nunca decidir.
Talento abre a porta. Mas o que sustenta um time por anos é a certeza de que a régua vale para todo mundo.
E na sua equipe, você teria coragem de cortar o seu melhor para proteger o padrão do grupo?
Assista ao case em vídeo no @dossie.cases
Análise: Jonathan Sarraf. Um case por dia no @dossie.cases.