3 min de leitura

Jorge Paulo Lemann: as três ideias que construíram um império

Como três frases repetidas desde 1971 levaram uma pequena corretora do Rio à compra da dona da Budweiser.
Jorge Paulo Lemann: as três ideias que construíram um império

Jorge Paulo Lemann não tem um método novo. Tem três frases velhas, repetidas desde 1971. Não são fórmulas sofisticadas nem segredos guardados a sete chaves. Cabem num cartão de visita. E, ainda assim, uma delas ajuda a explicar como uma corretora pequena no Rio de Janeiro terminou dona da Budweiser. A pergunta que esse caminho provoca é simples e incômoda: o que vale mais, ter muitas ideias novas ou ter poucas ideias e repeti-las por décadas?

Uma corretora pequena e um problema de gente

Em 1971, Lemann e sócios compram uma corretora pequena no Rio, a Garantia. Não era um gigante do mercado. Era um negócio modesto, com tudo por fazer.

Ali nasce a primeira ideia: gente boa, paga por desempenho. A regra era direta. Quem entregava resultado virava sócio, sem importar idade ou sobrenome. Num ambiente em que relações e origem costumam pesar, a proposta mudava a lógica do jogo. O que contava era a entrega.

Essa escolha não é só uma política de remuneração. É uma forma de atrair e segurar quem tem ambição. Se o resultado abre a porta da sociedade, as pessoas certas têm motivo para ficar e para dar o máximo.

Quando o talento cobra caro

Só que havia um conflito no meio do caminho. Gente boa cobra caro, e o dinheiro era curto.

É aqui que a história poderia travar. Uma empresa pequena que quer os melhores, mas não tem caixa para pagá-los como os grandes, precisa resolver essa conta de algum jeito.

Então veio a segunda ideia: custo baixo, sempre. Escritório simples, e o lucro voltava para o negócio. Em vez de gastar com aparência, o dinheiro ia para onde gerava retorno. A austeridade não era um castigo. Era o que tornava possível sustentar a primeira ideia.

Repare como as duas frases se encaixam. Uma diz como recompensar as pessoas. A outra garante que sobre recurso para isso e para crescer. Separadas, cada uma é um bom conselho. Juntas, viram um sistema.

Da corretora às cervejas

Com essas duas ideias funcionando, o grupo começou a olhar para fora do mercado financeiro.

Em 1982, entra nas Lojas Americanas. Em 1989, compra a Brahma. Em 1999, a Brahma se une à Antarctica e nasce a AmBev. Depois, a fusão com a Interbrew cria a InBev. E, em 2008, a InBev compra a Anheuser-Busch, dona da Budweiser.

A sequência impressiona pela escala. De uma corretora pequena no Rio para a dona de uma das marcas de cerveja mais conhecidas do mundo. Mas o que chama atenção não é só o tamanho de cada passo. É que, a cada novo negócio, as mesmas ideias eram levadas junto.

A frase que sustentava tudo

Faltava a terceira frase, a que dava direção ao resto: sonho grande dá o mesmo trabalho que sonho pequeno.

É uma ideia que muda a forma de enxergar o esforço. Se o trabalho de construir algo modesto e algo enorme é parecido, por que não mirar alto? Essa lógica ajuda a entender por que o grupo não parou na corretora, nem no varejo, nem no mercado brasileiro de cerveja.

As três frases formam um tripé. Gente boa, paga por desempenho, garante quem executa. Custo baixo, sempre, garante os recursos. Sonho grande dá o mesmo trabalho que sonho pequeno define até onde se quer chegar.

A lição

O caso de Lemann mostra que cultura não nasce de um manual extenso. Nasce de poucas ideias, repetidas por décadas. Poucas ideias, repetidas por tempo suficiente, valem mais que muitas ideias novas.

Para quem empreende ou lidera, há alguns pontos práticos aqui.

Primeiro, simplicidade é vantagem. Frases curtas são fáceis de lembrar, de repetir e de cobrar. Quando todo mundo sabe quais são os princípios, as decisões do dia a dia ficam mais rápidas e coerentes.

Segundo, os princípios precisam conversar entre si. Pagar bem por desempenho só se sustenta se houver disciplina de custo. Ambição grande só vira realidade se houver gente capaz de executar. Valores soltos, que se contradizem, não constroem nada.

Terceiro, constância vence novidade. É tentador trocar de método a cada tendência. Mas cultura se forma justamente pela repetição. O que se diz em 1971 e ainda se pratica muitos anos depois deixa de ser discurso e vira identidade.

Quarto, mérito precisa ser concreto. Dizer que se valoriza resultado é fácil. Transformar quem entrega em sócio, sem olhar idade ou sobrenome, é o que dá credibilidade à promessa.

A maior parte das empresas não sofre por falta de ideias. Sofre por excesso delas e por falta de persistência em poucas.

Se você tivesse que resumir a cultura da sua empresa ou da sua equipe em três frases que repetiria pelas próximas décadas, quais seriam?


Assista ao case em vídeo no @dossie.cases

Análise: Jonathan Sarraf. Um case por dia no @dossie.cases.

Mais cases do Dossiê · Tenha seu case contado por aqui