Flávio Augusto: vender a Wise Up no auge e recomprar com desconto
Vender a empresa que você criou já é uma decisão difícil. Comprar essa mesma empresa de volta, poucos anos depois, parece contradição. Flávio Augusto fez as duas coisas com a Wise Up. Vendeu por cerca de 877 milhões de reais e, anos depois, recomprou pagando bem menos do que tinha recebido. Por que alguém recompra o que acabou de vender? A resposta não está na sorte. Está na leitura de momento.
Um começo pequeno num mercado lotado
A história começa no Rio de Janeiro, em 1995. Flávio Augusto da Silva abre a Wise Up, uma escola de inglês. O ponto de partida é modesto, e o cenário não ajuda: o mercado de ensino de idiomas já estava lotado de concorrentes.
Mesmo assim, a rede cresce. E cresce por quase duas décadas. É o tipo de trajetória que transforma um negócio pequeno em uma operação relevante, com marca, alunos e estrutura espalhada.
Só que crescer cobra seu preço. Mais estrutura significa mais custos. Mais gente significa mais complexidade para gerir. E mais tamanho significa mais risco. Quem lidera uma empresa nessa fase sabe que o sucesso também traz um peso que precisa ser carregado todos os dias.
A oferta de 877 milhões
Em 2013, chega a proposta. A Abril Educação oferece cerca de 877 milhões de reais pela Wise Up.
Flávio aceita. Ele deixa o negócio que construiu do zero e sai pela porta da frente, com um valor que a maioria dos empreendedores nunca verá na vida.
E ele não fica parado. No mesmo ano, compra o Orlando City, nos Estados Unidos. A cabeça já estava em outro projeto, em outro país, em outro setor.
Para quem olhava de fora, a história parecia encerrada. A Wise Up tinha um novo dono, e o fundador tinha seguido em frente. Parecia o fim.
O que acontece com uma peça num tabuleiro grande
Mas veio o inesperado.
Dentro de um grupo enorme, a escola deixou de ser o centro de tudo. Virou só mais uma peça. Esse é um risco conhecido quando um negócio criado com foco e identidade própria passa a fazer parte de uma estrutura muito maior. A atenção se divide, as prioridades mudam, e aquilo que era a razão de existir de alguém passa a ser um item entre vários.
Para o fundador, a empresa era a obra principal. Para o grupo comprador, era parte de um portfólio. A diferença de perspectiva muda tudo.
A volta com desconto
Por volta de 2015, Flávio compra a Wise Up de volta.
E paga bem menos do que tinha recebido na venda.
O movimento resume a história em uma frase: saiu no auge e voltou com desconto. Vendeu quando o negócio valia muito e recomprou quando o valor estava mais baixo. Entre uma ponta e outra, ficou com a diferença e com a empresa que tinha criado.
Não foi um golpe de sorte. Foi leitura de momento. Ele percebeu quando vender fazia sentido e, depois, percebeu quando recomprar fazia sentido também.
A lição
A história de Flávio Augusto com a Wise Up desmonta uma ideia comum: a de que vender uma empresa é uma decisão definitiva, quase sentimental, um adeus sem volta. Ele tratou a venda e a recompra como decisões estratégicas, separadas do apego.
Há três pontos práticos aqui para quem empreende ou lidera.
Primeiro, o valor de um negócio muda com o tempo e com o contexto. O mesmo ativo pode valer muito em um momento e bem menos em outro. Quem entende isso consegue agir na hora certa, em vez de reagir tarde.
Segundo, crescer tem custo. Estrutura, gente e risco aumentam junto com o tamanho. Reconhecer esse peso ajuda a avaliar com clareza quando uma boa oferta é, de fato, uma boa oportunidade.
Terceiro, nem todo comprador enxerga o negócio como o fundador enxerga. Uma empresa pode perder força quando vira só mais uma peça dentro de um grupo maior. Quem conhece o negócio por dentro sabe identificar quando aquele ativo está subvalorizado e ainda tem potencial.
No fim, a decisão que mudou tudo não foi uma só. Foram duas: saber a hora de vender e saber a hora de recomprar. Isso é estratégia, não sorte.
E você: conseguiria separar o apego da estratégia a ponto de vender o que construiu e, se fosse o caso, comprar de volta?
Assista ao case em vídeo no @dossie.cases
Análise: Jonathan Sarraf. Um case por dia no @dossie.cases.