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Rede Mais Saúde: como o preço baixo virou estratégia em Belém

Márcio Bitencourte transformou consulta barata para quem não tem plano em volume, e saiu de 200 m² para um prédio de 4 mil m² em Belém.
Rede Mais Saúde: como o preço baixo virou estratégia em Belém

Em março de 2020, quando o país fechava as portas, Márcio Bitencourte abriu uma clínica com 18 salas em Ananindeua. Visto de fora, parecia coragem, ou imprudência. Mas o que sustentou essa aposta foi outra coisa: uma conta que quase ninguém fazia no Pará. A pergunta deste case é simples e incômoda. Como uma empresa que vive de cobrar pouco consegue crescer, em vez de quebrar?

O risco de cobrar pouco

Preço baixo costuma ser uma armadilha para empresa pequena. A margem é curta, o custo fixo é alto, e basta um mês ruim para a operação desandar. Muita gente entra no mercado oferecendo o menor preço e descobre, tarde demais, que vender barato não é o mesmo que ter um negócio barato de operar.

A Rede Mais Saúde nasceu exatamente nesse terreno perigoso. A proposta era baratear consulta e exame para quem não tinha plano de saúde. Um público grande, com necessidade real, mas com pouco dinheiro para gastar. Atender essa demanda exige preço acessível, e preço acessível exige uma operação que aguente o tranco.

Tudo em 200 metros quadrados

Por volta de 2014, tudo cabia em cerca de 200 metros quadrados. Era o começo de uma ideia que, pela lógica comum, tinha tudo para não passar do primeiro aperto financeiro.

Mesmo assim, a Rede Mais Saúde cresceu. E cresceu de um jeito que diz muito sobre o modelo. A unidade de Ananindeua chegou a ter cerca de 500 metros quadrados, uns 40 profissionais e capacidade para atender 300 pacientes por dia. Não era só uma clínica maior. Era uma estrutura pensada para receber gente em quantidade.

Foi essa unidade, com suas 18 salas, que abriu as portas em março de 2020, no momento em que quase todo mundo recuava.

O salto para o centro de Belém

Entre 2024 e 2025, com sócios, Márcio foi além. A rede passou a ocupar um prédio de cerca de 4 mil metros quadrados em Batista Campos, no centro de Belém. São mais de 40 especialidades, com consulta a partir de 80 reais.

A distância entre os 200 metros quadrados do início e os 4 mil do prédio atual mostra que o preço baixo não foi um obstáculo ao crescimento. Pelo contrário: ao que tudo indica, foi o motor dele.

Onde está a conta

O segredo, ao que tudo indica, é volume. Consulta, exame, odontologia e medicina do trabalho dividem a mesma estrutura. Isso significa que o mesmo espaço, a mesma recepção e a mesma operação servem a várias frentes de atendimento ao mesmo tempo.

O raciocínio é direto: cada sala cheia paga o preço baixo da próxima consulta. Quando a estrutura está ocupada, o custo fixo se dilui entre muitos atendimentos. O que seria um peso para uma clínica vazia vira uma vantagem para uma clínica movimentada.

É por isso que cobrar pouco não quebrou a empresa. O preço baixo não foi um desconto improvisado para atrair clientes. Foi a base sobre a qual a operação inteira foi desenhada.

A lição

Preço baixo só vira estratégia quando a operação nasce para ele. Essa é a diferença entre quem dá desconto e quem constrói um modelo de custo baixo.

Para quem empreende, o caso da Rede Mais Saúde deixa alguns pontos práticos:

  • Preço é consequência, não ponto de partida. Antes de decidir cobrar pouco, é preciso saber se a estrutura consegue sustentar isso. Reduzir preço numa operação desenhada para margem alta costuma ser o caminho mais curto para o prejuízo.
  • Volume precisa de estrutura. Atender muita gente exige espaço, profissionais e processos preparados para isso. A unidade de Ananindeua já nasceu pensada para centenas de pacientes por dia.
  • Dividir custo fixo multiplica a margem. Quando vários serviços usam a mesma estrutura, cada atendimento fica mais barato de entregar. É a ocupação que transforma custo em vantagem.
  • Momento difícil pode ser janela. Abrir uma clínica em março de 2020 parecia contraintuitivo. Mas quem tem uma conta bem feita consegue enxergar oportunidade onde outros só veem risco.

A história também lembra que conhecer bem o público é parte da estratégia. Quem não tem plano de saúde precisa de atendimento acessível, e um modelo construído para esse público tende a encontrar demanda constante.

No seu negócio, o preço que você cobra foi desenhado junto com a operação, ou a operação está tentando sobreviver ao preço que você escolheu?


Análise: Jonathan Sarraf. Um case por dia no @dossie.cases.

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