Como Jonathan Sarraf trocou o plantão por uma fintech para médicos
Ele era médico, fazia plantão e ganhava bem. E não sabia para onde ia o próprio dinheiro. Parece contraditório, mas é uma situação comum em profissões de renda alta e formação longa. O que torna esta história diferente é o que veio depois: a saída que ele encontrou não ficou no consultório. Este é o case de quem assina as análises do Dossiê, Jonathan Sarraf.
O problema visto de dentro
Entre 2018 e 2020, Jonathan fazia plantões em UPA em Ananindeua. Foi ali, na rotina do pronto atendimento, que ele enxergou duas falhas que se repetiam com ele e com os colegas.
A primeira era o tempo. O plantão era pago bem depois do trabalho. O médico entregava as horas, atendia, cumpria a escala, e o dinheiro só chegava muito mais tarde. Para quem está começando a carreira, esse intervalo pesa: as contas não esperam o calendário de pagamento.
A segunda era o conhecimento. Ninguém ensinava médico a cuidar do que recebia. A formação prepara para diagnosticar e tratar, mas não para organizar a própria vida financeira. O resultado é o retrato da abertura: gente que ganha bem e não entende a própria conta.
Uma formação que não apontava para finanças
Nada na trajetória acadêmica de Jonathan sugeria que ele terminaria criando uma empresa do setor financeiro. Ele estudou Medicina pela UFPA, fez intercâmbio no Porto, em 2016, e seguiu para um doutorado em Genética.
É um percurso de quem se aprofunda na ciência, não de quem planeja abrir um negócio. E é justamente por isso que o case é interessante. A ideia não nasceu de uma análise de mercado feita de fora. Nasceu de uma dor sentida no próprio plantão.
A decisão de largar o plantão
Diante dessas duas falhas, Jonathan tomou a decisão que mudou o rumo da história: largou o plantão e criou a Portí, uma fintech para médicos.
Trocar uma renda estável de plantonista por uma empresa nova é uma aposta. Mas a aposta tinha uma base sólida: ele conhecia o problema em detalhe, porque tinha vivido cada parte dele. Sabia quem era o cliente, o que o cliente sentia e onde estava o atrito.
O principal produto responde diretamente à primeira falha. O Antecipaí adianta o recebível do plantão em até 72 horas, com foco em quem começa a carreira. Em vez de esperar o pagamento chegar muito tempo depois, o médico pode ter acesso ao valor rapidamente. A conta que ele não entendia virou o produto que ele oferece.
O próximo passo
A Portí não parou no primeiro produto. Em 3 de dezembro de 2025, lançou um fundo de recebíveis com a Humu. É um movimento que mostra a empresa buscando estrutura para crescer dentro do mesmo problema que a originou: o dinheiro que o médico já ganhou, mas ainda não recebeu.
O alvo agora é o Norte e o Nordeste. A escolha conversa com a origem da história. A empresa nasceu de uma experiência vivida no Pará, e o foco em regiões fora dos grandes centros tradicionais reforça essa identidade.
A lição
O case de Jonathan Sarraf mostra que a vantagem competitiva mais difícil de copiar é a experiência real com o problema. Quem viveu a dor sabe detalhes que nenhuma pesquisa entrega com a mesma precisão: o momento exato em que o atrito aparece, o perfil de quem sofre mais com ele e o que essa pessoa realmente precisa.
Há três aprendizados práticos para quem empreende ou lidera:
- Olhe para as falhas que você já normalizou. O atraso no pagamento do plantão era aceito como parte do jogo. Problemas tratados como "é assim mesmo" costumam esconder oportunidades.
- Escolha um público com precisão. A Portí não tenta atender todo mundo. O foco está em médicos, e o Antecipaí mira especialmente quem começa a carreira, onde a dor é mais forte.
- Resolva primeiro o problema mais urgente. Entre as duas falhas que Jonathan identificou, o produto central ataca a mais imediata: o tempo até o dinheiro chegar. A partir daí, a empresa ganha espaço para crescer.
O problema que você viveu por dentro pode virar o seu negócio. A pergunta é se você está prestando atenção nele ou apenas convivendo com ele.
Qual problema da sua rotina de trabalho você já aceitou como normal, mas que poderia ser a base de uma solução que ninguém criou ainda?
Análise: Jonathan Sarraf. Um case por dia no @dossie.cases.